O que nós vemos

novembro 4, 2009

ManitobaFields

O primeiro post deste blog de pretenso conteúdo ontológico é uma poesia de “ontologia negativa” do grande Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Quem determinou que conhecer conceitualmente é modo mais perfeito que conhecer com os olhos, com os ouvidos, com a boca, com a pele, com o nariz? O que pode parecer uma ironia quanto ao conteúdo do blog, pode muito bem ser trágico para quem não consegue, como eu, viver sem metafísica. Quem dera o infinto coubesse com folga nos meus sentidos… Aí vai:

O que nós vemos

O que nós vemos das cousas são as cousas.

Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?

Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos

Se ver e ouvir são ver e ouvir?

O essencial é saber ver,

Saber ver sem estar a pensar,

Saber ver quando se vê,

E nem pensar quando se vê

Nem ver quando se pensa.

Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),

Isso exige um estudo profundo,

Uma aprendizagem de desaprender

E uma seqüestração na liberdade daquele convento

De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas

E as flores as penitentes convictas de um só dia,

Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas

Nem as flores senão flores.

Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

(Alberto Caeiro)


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