
O primeiro post deste blog de pretenso conteúdo ontológico é uma poesia de “ontologia negativa” do grande Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. Quem determinou que conhecer conceitualmente é modo mais perfeito que conhecer com os olhos, com os ouvidos, com a boca, com a pele, com o nariz? O que pode parecer uma ironia quanto ao conteúdo do blog, pode muito bem ser trágico para quem não consegue, como eu, viver sem metafísica. Quem dera o infinto coubesse com folga nos meus sentidos… Aí vai:
O que nós vemos
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
(Alberto Caeiro)